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André Rocha Ferreti: população deve opinar sobre mudanças climáticas

Maura Campanili

André Rocha Ferreti, coordenador do Observatório do Clima. (Foto: José D’Ambrósio)

Coordenador do Observatório do Clima (OC), uma rede de organizações não-governamentais e movimentos sociais que atuam na área de mudanças climáticas, o engenheiro florestal André Rocha Ferretti afirma que a população não está sendo ouvida nas discussões sobre mudanças climáticas. E por conta disso que esta rede de articulação tem liderado iniciativas como a Consulta Pública Visões Globais do Clima, onde pessoas deram depoimentos sobre como veem e como estão sendo impactadas pelas mudanças climáticas, e a atual campanha 1 minuto pelo clima, na qual as pessoas enviam depoimentos através da internet para as autoridades que participarão da COP 15. Coordenador de Conservação da Biodiversidade da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, Ferretti coordenou o projeto “Ação Contra o Aquecimento Global em Guaraqueçaba”, desenvolvido pela SPVS, voltado a mostrar que é possível compensar e evitar as emissões de CO2 conservando florestas ameaçadas pelo desmatamento, bem como retirando carbono da atmosfera, através de atividades de restauração florestal, em áreas anteriormente desmatadas.

Clima em Revista - O que é a campanha 1 minuto pelo clima e o que será feito com os depoimentos que forem postados?

André Rocha Ferretti - É uma plataforma de vídeo que ficará disponível até a COP15 para colher depoimento das pessoas sobre o que esperam do governo brasileiro para Copenhague, como desdobramento do Programa Visões Globais do Clima, que foi uma consulta pública sobre o que os cidadãos do mundo esperam da COP 15. Os depoimentos serão reunidos no site http://www.minutopeloclima.org.br/, criado especialmente para abrigar a campanha. Uma amostra dos depoimentos será enviada ao presidente Lula antes da viagem para Copenhague para que ele saiba o que os brasileiros esperam de seu governo em relação às mudanças climáticas. A iniciativa do Observatório do Clima (OC) – uma rede brasileira de organizações não governamentais e movimentos sociais que trabalham no combate às mudanças climáticas no Brasil – tem o apoio do Canal Futura.

Clima em Revista - Por que o Observatório do Clima acha importante a participação direta da população através dos depoimentos?

Ferretti - A população não tem sido consultada sobre as mudanças climáticas. Muita gente já está sofrendo as consequências desse problema e a tendência é que a situação piore cada vez mais. Eventos climáticos extremos como secas e enchentes estão ocorrendo cada vez com mais frequência em todo o mundo, trazendo doenças, prejuízos econômicos, impactando culturas, matando pessoas, enfim, alterando a vida de muita gente. Apesar da Convenção do Clima ter sido aberta para assinatura em 1992, de lá para cá as emissões de gases de efeito estufa só aumentaram. Cada dia que passa, estamos mais perto de chegar a um ponto em que as consequências econômicas, sociais e ambientais poderão ser muito severas e irreversíveis. O mundo espera que na COP 15 os negociadores de seus países aprovem um novo acordo climático global que irá vigorar a partir de 2013, após a conclusão do primeiro regime de compromissos de redução de emissões estabelecido pelo Protocolo de Quioto. O aquecimento global é o maior desafio da nossa geração. É fundamental que o mundo tome uma atitude agora, para que possamos viver num mundo parecido com o que nós e os nossos ancestrais tivemos a oportunidade de viver até o momento. Portanto, é preciso que a população seja envolvida nessa discussão e seja ouvida!

Clima em Revista - O que é e quem faz parte do Observatório do Clima?

Ferretti - O Observatório do Clima é uma rede brasileira de articulação sobre o tema das mudanças climáticas globais criada em 2002. Além de discussões com especialistas sobre as mudanças climáticas, o Observatório promove a articulação de entidades da sociedade civil para pressionar o governo por ações contundentes pela mitigação e adaptação do Brasil em relação à mudança do clima. O OC é composto por 35 instituições: Aliança para a Conservação da Mata Atlântica; Amigos da Terra - Amazônia Brasileira; Amigos da Terra - Núcleo Amigos da Terra – Brasil; Anama - Ação Nascente Maquiné; APREC Ecossistemas Costeiros; Apremavi - Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida; Coiab - Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira; Comissão Pastoral da Terra - Regional Amazonas; Conservação Internacional Brasil; Fundação O Boticário de Proteção à Natureza; Germen - Grupo de Recomposição Ambiental; Greenpeace Brasil; GTA - Grupo de Trabalho Amazônico; GVces - Centro de Estudos em Sustentabilidade; IBio -- Instituto BioAtlântica; Iclei – Governos Locais pela Sustentabilidade; ICV - Instituto Centro de Vida; Idesam - Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas; Iesb - Instituto de Estudos Sócio-Ambientais do Sul da Bahia; IIEB - Instituto Internacional de Educação do Brasil; Imazon - Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia; Instituto Ecoar para Cidadania; Instituto Ecológica; Instituto Pró-Natura - Instituto Brasileiro de Pesquisas e Estudos Ambientais; Instituto Pro-Sustentabilidade; ISA - Instituto Socioambiental; IPAM - Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia; IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas; Mater Natura; SBDIMA - Sociedade Brasileira de Direito Internacional do Meio Ambiente; SNE - Sociedade Nordestina de Ecologia; SOS Amazônia; SPVS - Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental; The Nature Conservancy; WWF Brasil.

Clima em Revista - O que estas instituições esperam da COP 15?

Ferretti - Esperamos, principalmente, que seja estabelecido um novo acordo climático global para o período pós 2012, com participação ativa de todos os países membros da Convenção do Clima.  Também, que sejam estabelecidas metas ambiciosas e rígidas de redução de emissões de gases do efeito estufa pelos países desenvolvidos nas conclusões sobre o novo regime de clima, em Copenhague, e que os negociadores brasileiros liderem os esforços para estabelecer um novo marco internacional que garanta que o aquecimento global ficará bem abaixo dos 2° C em relação à média pré‐industrial e que, antes do final da próxima década, se inicie a trajetória descendente das emissões globais. Da mesma forma, esperamos forte engajamento dos negociadores brasileiros para estabelecer legalmente os mecanismos financeiros para viabilizar a redução de emissões e programas da adaptação nos países em desenvolvimento, mais vulneráveis às mudanças climáticas; apoio e empenho do Brasil na criação de um mecanismo de REDD (Redução das Emissões do Desmatamento e Degradação Florestal) no âmbito da Convenção da ONU sobre Mudança do Clima e de seu acordo pós 2012, capaz de estimular e recompensar os países tropicais pela redução do desmatamento e emissões associadas e pela conservação florestal em seus territórios.

Clima em Revista - Há outras atividades programadas para antes e durante a COP, além da campanha 1 minuto pelo clima?

Ferretti - Além da campanha, o Observatório do Clima promoverá, em parceria com o Interlegis, a Frente Parlamentar Ambientalista, o GVces, e a Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, o “Seminário Pré COP 15: O Brasil e as Mudanças Climáticas”. O objetivo do seminário é discutir a posição Brasileira na COP15, o novo regime de clima global a ser negociado em Copenhague, políticas públicas sobre mudanças climáticas no Brasil, a ciência da mudança climática e o papel do Brasil nas discussões internacionais de clima. Nessa oportunidade, o Observatório fará a entrega oficial, às autoridades presentes, do relatório da Consulta Pública Visões Globais do Clima, realizada dia 26 de setembro em São Paulo, bem como a divulgação de um manifesto sobre REDD. O evento será realizado na sede do Interlegis em Brasília, dia 24 de novembro. Além disso, diversos membros do Observatório do Clima estarão presentes na COP 15, alguns deles promovendo reuniões técnicas e debates. Durante o evento, essas pessoas estarão enviando informações diariamente para o Blog do site do Observatório do Clima. No site, os internautas já podem encontrar um espaço dedicado a COP15 chamado “De Olho na COP15”, com matérias exclusivas, notícias e opiniões dos membros do Observatório do Clima.

Clima em Revista - Além da COP, o Observatório tem se envolvido em outras questões relacionados às mudanças climáticas que estão acontecendo no momento no Brasil, como o projeto de lei que altera o Código Florestal.  Além desta, há outras questões importantes para serem acompanhadas pelos brasileiros? Quais?

Ferretti - No momento, há uma série votações de leis federais no Congresso Nacional que estão direta ou indiretamente relacionadas com o tema das mudanças climáticas, como o PL 18/2007, que cria a Política Nacional de Mudanças Climáticas, o PL 2223/2007, que cria o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima, entre outras. É fundamental que a sociedade acompanhe e dialogue com seus representantes para que o país aprove leis, e que elas contemplem os interesses da sociedade. Por isso, é fundamental que as pessoas estejam bem informadas, capacitadas, e mobilizadas. A discussão sobre a exploração do pré-sal, por exemplo, é de grande importância. O petróleo pode ser uma importante fonte de recursos para o desenvolvimento do país, mas por outro lado poderá mantê-lo num modelo econômico dos séculos XIX e XX, prejudicando a entrada do país no modelo de economia, energia e sociedade do século XXI. As obras do PAC, cada vez mais aceleradas com a proximidade das eleições de 2010, entre elas estradas que cortam áreas naturais e a construção de termoelétricas, trazem grande impacto às emissões de gases de efeito estufa do país. Muitas podem gerar emissões diretas e incentivar emissões por desmatamento e ocupação de áreas atualmente cobertas por vegetação nativa. O Plano Nacional de Mudanças Climáticas, que será revisado no início de 2010, o Plano Nacional de Energia, lançado em 2007 e com horizonte de ação até 2030, entre outros, precisam ser melhor discutidos com a população e, mais do que tudo, não podem ser tratados separadamente. Há muitas questões importantes além dessas e os brasileiros precisam estar muito atentos, principalmente agora que teremos a oportunidade de conhecer as propostas dos candidatos às eleições de 2010. É muito importante analisar os programas dos partidos e candidatos e questioná-los sobre o que farão em relação ao tema das mudanças climáticas, cobrando, no futuro, que os eleitos tomem atitudes que ajudem a combater e adaptar o país para o problema.

Clima em Revista - Além de participar de campanhas, o que mais a população pode fazer para ajudar a melhorar o clima no mundo no país e na sua comunidade?

Ferretti - A população precisa cobrar dos seus representantes legais e governantes ações reais de combate às mudanças climáticas, como redução drástica das emissões por desmatamentos e queimadas em todo o território nacional, investimentos maciços em tecnologias e energias de baixa emissão de carbono, proteção de áreas naturais para conservação de estoques de carbono e conservação da biodiversidade, restauração de áreas degradadas recuperando solos, paisagens e promovendo a captação de carbono da atmosfera, entre outras. A constatação dos cientistas de que as alterações no clima que têm ocorrido nos últimos anos são reflexos de ações humanas tem estimulado a sociedade a refletir sobre formas de diminuir emissões de gases responsáveis pelas mudanças climáticas, que geram efeitos como o aquecimento global. Compreender o impacto que as ações humanas vêm causando no nosso planeta é responsabilidade de todos. Agir é fundamental para mudarmos esta situação. Entre outras ações, as pessoas podem contribuir evitando desperdício de energia, conservando áreas naturais; plantando árvores e restaurando áreas degradadas; adotando práticas agrícolas mais sustentáveis como plantio direto, o cultivo mínimo e os sistemas agroflorestais; utilizando lâmpadas econômicas; priorizando fontes alternativas de transporte e energia que não emitam ou reduzam as emissões de gases de efeito estufa; economizando e reutilizando produtos; mantendo o máximo de vegetação nativa e não fazendo queimadas; consumindo produtos de origem certificada e preferencialmente de sua região; praticando o consumo responsável (durante as compras, evite produtos com excesso de embalagens, compre somente o necessário, prefira produtos de empresas socialmente responsáveis e utilize sua própria sacola).